sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Honra nos Negócios

O texto que apresento foi escrito por António Santos Neves, Director da revista Auto-Foco, na edição de 18 a 24 de Fevereiro de 2010 e intitula-se "Erro meu?! Responsável...eu?!".

“Assumir responsabilidades (erros e consequências) está completamente fora de moda... E pagar pelos erros, ainda que de forma compulsiva, também muito fora de moda está a ficar...

É o caso dos iluminadíssimos cérebros de grandes grupos financeiros que levaram o caos à economia mundial (parece já bem firme o caminho de passar uma esponja, que é como quem diz tantas quantas forem necessárias, sobre diabólica catadupa de aldrabices - e segue o baile até à próxima!).

Atente-se no alastrar de políticos por esse mundo fora com ascensão feita na base da mediocridade, dilecto campo lavrado para multiplicar incompetências, compadrios ("jobs for the boys" e o que deles deriva...), indignas submissões, promiscuidades... - que enxovalho à nobreza da política!

Na Justiça, com muito especial foco na portuguesa, que desvario no forrobodó a ver quem influencia, ou mesmo manda, mais do que quem!... E esta absorvente sensação, já roçando convicção, de a fundamental independência da Justiça  sofrer tratos de polé por já não poucos dos seus agentes parecerem colados a este e aquele partido político, ou outros tipos de interesses!

Quando assim agonizam pilares da sociedade humana, aplauda-se a japonesa Toyota. Gigante dos gigantes da indústria automóvel e, podendo orgulhar-se enquanto ex-libris de firme qualidade ao longo das décadas, ei-la que errou. Durante meses, desde Abril do ano passado, fabricou automóveis (perto de 8 milhões...) com deficiências no sistema de travagem e no pedal do acelerador. Acontece ao mais pintado. Mas a Toyota não se limitou a avisar clientes e reparar esses carros. O presidente Akio Toyoda, ele próprio, ainda mais se responsabilizando por ser neto do fundador considerou-se "pessoalmente envolvido" e, publica e intensamente, pediu desculpas. Eis o oposto da intelectual mediocridade que nada assume e passa a bola a outro...”
 
Santos Neves, Editorial da Auto-Foco, 18 a 24 de Fevereiro de 2010

Decidi transcrever e publicar este texto por achar que representa a atitude que deveriam adoptar os responsáveis das empresas, independentemente das suas dimensões, quando algo corre de forma imprevista.
 
Quando o nosso sistema financeiro estava a cair por causa da ganância de uns, os outros (ou seja nós), víamos empresas fechar, pessoas desesperadas por ficar sem trabalho, por não saber do que seria feito o dia de amanhã, receando ver a situação durar... Os Estados investiram massivamente para salvar a economia. No seguimento disso ouvíamos, incrédulos,  histórias de traders receberem bónus e outros pára-quedas dourados, perante a indignação de todos.
 
Neste contexto, as pedidas de desculpas do presidente da Toyota aparecem como uma lufada de ar fresco num mundo sinistro onde muito se fala de números e nada de valores. Ouvi e vi um senhor apresentar-se sozinho perante jornalistas e, consequentemente, perante o mundo, pedir desculpas aos clientes da marca…e não só. Esta semana, este senhor ainda teve de se explicar perante o Congresso americano, não havendo provavelmente justificação para tal. Mais do que um pedido de desculpas, trata-se de uma questão de honra e, pessoalmente, nunca tinha pensado que um senhor tão poderoso fosse capaz de pedir desculpas... Por sua vez, nunca ouvimos os responsáveis dos bancos pedirem desculpas pela m***a que fizeram.
 
Assim, queria saudar o Sr. Toyoda pela sua coragem e pela sua humildade. E embora a imagem da Toyota tenha sofrido com isso, acredito que esta reacção só poderá ser benéfica para a empresa superar os desafios futuros.

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