sexta-feira, 25 de junho de 2010

Faz-me um Broche

Calma, leitores do meu coração, não enlouqueci. Este título tem uma razão de ser. É que foi assim, a frio, que um gajo se dirigiu a mim há uns tempos. Não foi num sitio recôndito e obscuro, não eram quatro da manhã, ele não parecia embriagado e eu não estava vestida à prostituta (acho). Eram umas onze da manhã de um dia solarengo e a cena passou-se no meio do Rossio. Olhei para o tipo, entre o enjoada e o incrédula, e continuei em direcção ao metro. Mas aquilo não me saiu da cabeça. Não que tenha havido ali qualquer coisa de erótico ou tentador, mas porque me interessou o lado sociológico da coisa. Ora bem, quando um homem se vira para uma mulher no meio da rua e lhe diz "faz-me um broche", o que é que está efectivamente à espera que aconteça?

Que ela lhe diga "com certeza, vamos embora", e lhe baixe as calças logo ali? Que confesse que não é adepta de cenas em público, mas que podem sempre ir procurar uma pensão barata mais limpinha ali nas redondezas? Que diga que de momento não lhe da jeito, que tem um metro para apanhar, mas que podem sempre agendar para mais tarde, se não se importa? A sério, alguém que me elucide.

Pela parte que me toca, apeteceu-me responder-lhe uma das seguintes hipóteses:
- E tem pila que chegue para isso?
- Que engraçado, era mesmo isso que me apetecia, como é que adivinhou? Andava aqui às voltas, estava a ver que nunca mais propunham!
- Que tal fazer uma daquelas operações que permitem alongar o pescoço? Assim se calhar já chegava sozinho e não era preciso vir para a rua chatear quem trabalha. Hmmm?

Claro que fui bambi e não disse nada, até porque não costuma ser boa ideia tentar interagir com gente desta (gosto de preservar a minha integridade física. Manias). Mas o mundo dos piropos é absolutamente fascinante. Penso até dedicar uma tese de mestrado ao assunto. Já dediquei muitas linhas ao tema, mas continuo à procura de respostas, de explicações.

Por exemplo, quase ao mesmo nível de proferir obscenidades estão as buzinadelas quando se passa por uma mulher gira (ou não tão gira quanto isso, que os critérios para esta prática costumam ser poucos ou nenhuns). Qual é exactamente o objectivo? Estão à espera do quê? Que ela corra atrás do carro implorando que lhe dêem o vosso número de telefone? Que ela fixe a matrícula e lance um apelo desesperado, daqueles que metem Judiciária e tudo? Pois. Não vai acontecer. E já que estamos numa de tirar dúvidas, depois de um homem buzinar a uma miúda, qual é o pensamento que lhe vai na mente? Fica contente consigo mesmo? Acha que acabou de cometer uma proeza inigualável? Sente-se um conquistador dos tempos modernos? Chega a casa, faz um tracinho na parede e diz "mais uma que já caiu que nem um tordo"? Se a ideia é afagar o ego feminino, esqueçam. Vou partilhar um segredo que talvez os ajude a parar com estas merdas. Então é assim: regra geral, quando uma mulher ouve uma buzinadela, o pensamento é "oh vida, mais um pacóvio". As vezes o adjectivo "pacóvio" da lugar a outros menos fofinhos (não posso reproduzir, já escrevi "broche" e "merdas", parece-me suficiente para uma só página).

Moral da história: homens deste meu país, arrojem nos piropos. E nada de entender o verbo arrojar como um sinónimo do verbo ajavardar. Isso é outra coisa. Uma coisa com alguma classe, dita olhos nos olhos, costuma sortir muito mais efeito do que um "comia-te tooooooooda" gritado de um Fiat Punto em movimento.


Texto de Ana Garcia Martins, Playboy, Maio 2010

domingo, 20 de junho de 2010

Czech Me Out - Praga 2010

Hoje, gostava poder escrever um texto fabuloso que fosse à altura da cidade de Praga mas cheguei à conclusão que seria impossível. Não tenho talento para descrever os momentos que vivi naquela cidade de forma fiel. Acho que ficaria sempre aquém das expectativas. Aliás, acredito que nem as fotografias que foram tiradas durante a estadia consigam transmitir a magia de Praga. Resumindo, Praga é uma cidade que se vive e que não se conta...
 
Contudo, queria deixar aqui algumas notas soltas (algumas claramente mais óbvias que outras).
 
Assim, Praga só se recomenda a quem gostar de cidades antigas carregadas de historia. Está extremamente bem conservada e é um encanto passear pelas ruas do centro histórico ou na zona do castelo. Poderão aproveitar para visitar os inúmeros museus, igrejas e outros monumentos que povoam a cidade. De salientar que muitos locais são aproveitados como salas para concertos de musica clássica, logo os amadores terão muito por onde escolher :-)
 
Em termos de preço, é o costume: há que ter muito cuidado com os "apanha turistas" mas, em regra geral e pelo que vi, não achei grande diferença de preços em relação a Portugal. Porém, caso queiram cometer loucuras, há muito por onde escolher...
 
No que diz respeito à gastronomia, espero que gostem de carne de porco que é preparada de 1001 maneiras. A própria McDonald's, especialista da localização e da criação de produtos adaptados à população local, teve a ideia de criar uma sande de porco. Antecipando a vossa pergunta: "Claro que a provei e não a achei grande coisa." Como diria o meu irmão: "Come-se". Para além do McDonald's, encontrarão uma grande diversidade de verdadeiros restaurantes e, neste caso, recomendo-vos o restaurante Italiano La Grotta.
 
Em relação aos transportes e se querem um conselho: usem e abusem do eléctrico. Por 4 euros por dia, poderão comprar um passe válido em todo o tipo de transportes na cidade (eléctrico, metro, autocarro). Vale a pena, principalmente quando for para subir até ao Castelo :-)
 
De resto, em termos de curiosidades, ficarão a saber que a densidade de automóveis da marca Skoda ao Km² é absolutamente louca (o que não é de estranhar). Mais estranho será a densidade de lojas de massagens tailandesas presentes nas ruas de Praga. Para quem tiver incontinência, ficarão a saber que muitas casas de banho são a pagar (5 coroas checas, como foi o caso na McDonald's) e que, pelos vistos, o que está na moda é ter um coelho como animal de estimação. No último dia da estadia, pude ver uma mulher passear um coelho atado a uma trela por um jardim... Até foi castiço :-)
 
Mais do que isso não vos poderei dizer muito. Foram uns dias extremamente bem passados, uma excelente experiência, com óptima companhia. Uma coisa é quase certa: voltarei!
 
Abraço

terça-feira, 8 de junho de 2010

O Muro da Vergonha Argentino

No início do mês de Abril, em Buenos Aires, um muro começou a ser erguido entre um bairro pobre (San Fernando) e um bairro rico (San Isidro). Hoje, já nada sobra desta construção que suscitou a indignação da classe política e do povo.

Entre estes dois barros existe um abismo económico. Em San Fernando, 40% da população vive abaixo do limiar da pobreza enquanto em San Isidro, o vencimento médio dos seus habitantes é 27 vezes superior ao vencimento dos habitantes de San Fernando. Neste contexto, os habitantes de San Isidro conhecem um problema característico dos países do terceiro mundo: a insegurança.

Um estudo a nível nacional conduzido pelo Instituto Nacional contra a Discriminação a Xenofobia e o Racismo (INADI) entre Dezembro de 2006 e Julho de 2008, revela que cerca de 70% dos Argentinos “confessam ter raciocínios e comportamentos discriminatórios”, nomeadamente para com o grupo social mais pobre.

Logo, torna-se muito fácil associar a pobreza à miséria e à delinquência e, por fim, não se sentir em segurança, exigindo a construção de um muro de apartheid social.

Este caso suscitou o meu interesse por ter sido o Estado a mandar erguer este muro. Este mesmo Estado que deve, supostamente, estar ao lado do povo, permitindo um diálogo social e que deve elaborar políticas que possibilitam a integração dos mais pobres na sociedade. Ora, por causa da sua incompetência ou da sua impotência, o Estado renunciou a este papel e deixou que se criasse uma crise social ainda mais profunda.

Este tipo de prática não é recente. Todos sabemos o que aconteceu em Berlim, o que está a acontecer na Cisjordânia, em Belfast, nas favelas de Rio de Janeiro ou ainda na fronteira entre os Estados Unidos e o México.

O mais perigoso nesta ideia de construir muros é que todos os especialistas em questões de segurança são unânimes em dizer que estas medidas são ineficazes. Na minha opinião, só servem para exacerbar um sentimento de injustiça que irá conduzir a uma extrema violência. Talvez seja a altura de pensar novamente nesta ideia antes que seja tarde demais, na Argentina e não só.

terça-feira, 1 de junho de 2010

Artista do Mês: Michel Sardou

Nem todos concordarão comigo mas acho que parte dos nossos gostos musicais é determinada pela música que ouvimos quando somos crianças. Da mesma forma que um filho opta geralmente por apoiar o clube de futebol do pai, acho que o mesmo se verifica com os nosso gostos musicais. Assim, quando eu ainda era petiz, não imaginem os meus pais a cantar canções dos Iron Maiden ou dos Led Zep... Nada disso, para além de canções tradicionais Portuguesas, a minha mãe costumava ouvir um dos maiores cantores Franceses: Michel Sardou.
 
Partindo do princípio que nenhum dos leitores deste blog conhece este artista, acho que uma pequena biografia impõe-se. Assim, Michel Sardou nasceu em Paris em 1947 e, desde cedo, esteve envolvido no mundo dos espectáculos. Como os estudos não lhe corriam nada bem, optou investir na sua paixão: a canção. A verdade é que, ao início (por volta de 1965), o sucesso não bateu à porta sendo que um director de uma editora chegou a declarar, na altura, que ele "não era feito para a canção" (o mais certo é este desgraçado ter-se dado um tiro depois). Conhecido pelas suas canções polémicas (um das delas foi censurada pelo Presidente Charles de Gaulle), nenhuma editora mostrar-se-á interessada em fazer-lhe assinar um contrato. Perante esta situação e com a ajuda de dois amigos, decidiu criar a sua própria editora (Tréma).
 
A partir de 1970, observa-se a eclosão de um cantor que será rotulado de "cantor popular" mas cujos textos serão duramente criticados pela imprensa e até censurados pelas rádios, por causa de tomadas de posições ou de temas politicamente controversos (colonialismo, homossexualidade, guerra, feminismo, pena de morte, etc.). Isto valeu-lhe ser alvo de um atentado à bomba em Bruxelas, em 1977. Tendo em conta este contexto, os álbuns seguintes serão muito mais softs e deixarão lugar a canções românticas e de introspecção que lhe permitiram passar a década de 80 de forma muito pacífica e culminando no Top 50. Os anos 90 e o início dos anos 2000 serão bastante calmos em termos musicais, sendo que o cantor iniciou uma carreira de actor e decidiu comprar um teatro em Paris (Théâtre de la Porte Saint-Martin). Contudo, este afastamento não fez com o que o público se esquecesse dele e cada novo álbum é, por norma, um sucesso garantido.
 
Para além dos álbuns cada vez mais vendidos, os seus concertos encontram-se sempre esgotados e o cantor mal-amado, alvo de críticas, tornou-se num dos artistas preferidos dos Franceses. Isto fará com que ele receba vários prémios... Ao todo, em termos quantitativos, a carreira de Michel Sardou resume-se a 23 álbuns, mais de 300 canções e cerca de 120 milhões de discos vendidos.
 
Das canções mais famosas, destacarei aqui algumas que gosto e que poderão ver nos vídeos aqui ao lado. Como sempre, optei por seleccionar gravações ao vivo porque acho que é nesses casos que se reconhecem os verdadeiros artistas.

Espero que gostem...