segunda-feira, 19 de julho de 2010

As Marés Negras Esquecidas do Delta do Nigér

Desde o mês de Abril, ouvimos notícias e intervenções frequentes do Presidente Obama na comunicação social acerca da catástrofe que está a acontecer no golfe do México, no seguimento da explosão da plataforma petrolífera Deepwater Horizon da BP. Embora seja uma tragédia em termos ambientais, fico cada vez mais perplexo sobre a forma como as notícias são escolhidas e tratadas. Assim, gostava que alguém me explicasse quais os motivos que impedem a comunicação social de exercer as suas funções em relação ao que tem sucedido no delta do Níger há 50 anos, onde a quantidade de petróleo rejeitada pelas plataformas, oleodutos, e estações petrolíferas ultrapassa de longe tudo o que está a ser rejeitado nas costas da Louisiana.
 
A título de exemplo, no dia 1 de Maio deste ano, no estado de Akwa Ibom (sudeste da Nigéria), um oleoduto da Exxon Mobil rebentou e ocasionou uma fuga de cerca de 4 milhões de litros de petróleo, durante 7 dias, antes que esta fosse colmatada.

Com 606 campos petrolíferos, o delta do Níger fornece 40% do total das importações de petróleo dos Estados-Unidos. Neste contexto, a indignação dos habitantes daquela região é facilmente compreensível.
 
Este sentimento de injustiça é reforçado pela catástrofe humanitária que estes derrames de petróleo têm provocado na população local. Uma população rural cujo meio de sobrevivência consiste em trabalhar a terra e a pescar. Obviamente, com o petróleo a cobrir o mar mas também os campos antigamente férteis, dificilmente poderão ganhar dinheiro para viver. Outra consequência das fugas permanentes de petróleo passa pela falta de água. Por fim, a esperança de vida destes habitantes foi avaliada em 40 anos. Assustador…

Embora seja impossível medir a quantidade exacta de petróleo perdida no delta do Níger por causa da atitude do Governo e das petrolíferas que preferem ocultar esses dados, dois estudos independentes apontam para números surrealistas. Assim, fala-se que durante estes últimos quatro anos foram rejeitados, todos os anos, no mar e nos campos a mesma quantidade que foi rejeitada até Junho no golfe do México. Segundo o relatório da WWF, estima-se que 1,5 milhões de toneladas (o que corresponde ao equivalente de 50 marés negras como a provocada pelo petroleiro Exxon Valdez, no Alaska) foram rejeitadas ao longo dos últimos 50 anos. Em 2009, a Amnesty International avaliou a quantidade total de petróleo rejeitada em, pelo menos, 9 milhões de barris. Por fim, as autoridades nigerianas referenciaram mais de 7 000 marés negras entre 1970 e 2000.

O que motiva tal indiferença e injustiça? Porque razão uma catástrofe ambiental está a ser mais noticiada do que uma crise humanitária? Alguém que me explique, por favor…

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