sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Por trás do Milagre dos Agrocarburantes

Araçoiaba, a região do ethanol, situada a Nordeste do Brasil conhece uma rotina perfeitamente controlada desde que este país decidiu tornar-se na Arábia Saudita do ethanol.

Tudo começa a meio da noite, com as plantações a arder, pintando o céu de vermelho. De madrugada, quando as chamas desapareceram e deixaram apenas brasas, chegam os trabalhadores. Milhares de homens, machada na mão, começam a cortar as canas deitadas no chão calcinado. Estas canas serão usadas para criar o famoso ethanol, o combustível do futuro.

O ethanol, para quem não sabe, é um álcool produzido a partir da cana-de-açúcar e que deverá assegurar um grande futuro ao Brasil e ao resto do planeta. Neste momento, o Brasil produz 26 mil milhões de litros por ano e espera chegar aos 53 mil milhões em 2017. Actualmente, cerca de 30 países misturam gasolina com ethanol. Os Estados Unidos pretendem responder a 15% da sua procura em carburantes com agrocarburantes até 2012. Por sua vez, a União Europeia deseja que cada litro de gasolina vendido seja constituído por 10% de ethanol até 2020.

O antigo Presidente Lula da Silva, grande político socialista teve uma grande ideia: a criação de uma cintura a nível do Equador para ligar os países do terceiro mundo em volta da cana-de-açúcar que cresce nos países tropicais. Assim, os pobres do planeta poderiam fornecer ethanol graças ao savoir-faire brasileiro. Uma espécie de OPEP de agrocarburantes seria criada que permitiria a estes países de se tornarem ricos e de ajudar a salvar o planeta. Este Lula da Silva é fantástico não é? Que visão…

Agora, deixem-me vos apresentar outra visão, não uma visão futurista mas sim uma visão mais terre à terre.

No total, são cerca de um milhão de trabalhadores que vivem neste universo, nas plantações ou nas fábricas de ethanol. Muitos destes vivem e sofrem como viveram e sofreram os seus antepassados: os escravos que trabalhavam nas plantações de canas-de-açúcar.

Nestas plantações, a Lei civil é ignorada e é substituída pela lei de milícias que usam a força para intimidar os trabalhadores e para expropriar pequenos camponeses graças aos seus bulldozers, em prol de uma visão económica.

Todos nós sabemos o que implica o trabalho de campo como escravo e não irei comentar sobre esta questão. Deixo aqui um link de interesse que vos permitirá meditar sobre este assunto: http://outrapolitica.wordpress.com/2010/07/22/trabalho-escravo-cresce-no-mesmo-ritmo-do-etanol/

Não me considero um grande socialista como o antigo Presidente Lula da Silva mas gostava que, de uma vez por todas, a inovação não fosse associada à regressão no que diz respeito aos Direitos do Homem. Afinal, o que está escrito na bandeira brasileira? Não será Ordem e Progresso?

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