sábado, 16 de abril de 2011

Talheres, Babetes e Grunhidos

Há poucas semanas atrás, concretizei o sonho de qualquer dona de casa portuguesa quando cheguei ao lado da minha mãe e disse-lhe, num tom solene: “Mãe, acho que estou a ficar magro… Alimenta-me como deve ser.”

Naquele preciso momento, não sei muito bem o que aconteceu na cabeça dela mas imagino que deva ter sido algo parecido com o fogo-de-artifício da Madeira pela passagem de ano. Ou seja, uma explosão de alegria, faíscas por todos os lados, uma doudeira total. O brilho que vi nos olhos dela não podia enganar ninguém. Acabava de fazer daquela mulher uma pessoa feliz e realizada, pois tinha-lhe dado carta-branca para me rechear, tal um peru na altura de Natal.

O mais certo é toda a gente saber do que estou a falar, pois a minha mãe não é um caso isolado. Na realidade, conheço muitas “mamãs portuguesas” que todas têm em comum uma vontade/felicidade terrível em ver-me comer como um boi. Lamento, mas não existem adjectivos ou melhores analogias do que esta para descrever o que eu e outras pessoas passamos. Dessas “mamãs”, posso citar grande parte das minhas tias (principalmente duas e ambas mulheres de taxistas para não citar aqui o nome delas) que poderiam estar sentadas durante horas a ver-me engolir o que vai passando pela mesa com um largo sorriso. E, neste contexto socio-cultural, a minha mãe não é excepção à regra...

Aliás, quando ela se junta a uma das irmãs, cuidado que não estão para brincadeiras. Seriam capazes de pôr um anoréctico a comer um cabrito inteiro ou um vegetariano a engolir um leitão. Nem se fala das sobremesas porque aí entramos num campo de batalha onde poucos foram aqueles que sobreviveram para contar o que lá se passa. É algo brutal, algo capaz de vos fazer engordar uns 7 kgs numa semana, ou seja, 1 kg por dia. Alguém imagina isso?

Já vos estou a ouvir: “Oh, mas isso é porque também ficas o dia todo deitado no sofá senão não seria tanto”. Errado!!! Ginásio todos os dias com direito a treino cardiovascular de 40 minutos e, mesmo assim, lá vão 7 kgs pra cima da balança. Imaginem se não praticasse desporto…

Só para terem noção, vou aqui contar um acontecimento verídico e que teve lugar em Dezembro, na hora do almoço. A minha mãe tinha preparado pescada cozida para ela e para o meu pai (comida saudável embora pouca saborosa) e, sabendo que não sou muito apreciador, preparou não uma alternativa mas sim duas. Quais eram elas: uma alheira e duas postas bem granditas de salmão. Na altura pensei que íamos receber um convidado mas não, era tudo para mim. Claro, isto depois de ter comido as habituais entradas e sabendo que, para sobremesa, haveria aletria, rabanadas e outros doces de Natal. Estão a visualizar o filme, não estão?

Naquela altura, não tinha feito o tal pedido para ser alimentado, por isso devem facilmente imaginar o que aconteceu há algumas semanas atrás. Se calhar não... Primeiro passo, fomos às compras e fui carregado como uma mula: 4 sacos de comida pendurados em cada braço para um total de cerca de 20 kgs. Segundo passo: correr a cidade de uma ponta à outra para tratar de assuntos e aproveitar para queimar calorias e abrir o apetite. Terceiro passo: sentar-se à mesa, colocar a babete à volta do pescoço, afiar a faca, verificar o resto dos talheres, confirmar que haverá bebida suficiente para ajudar a engolir tudo o que vai aparecer. Quarto passo (mais uma vez, lamento a expressão): abrir as goelas e deitar abaixo.

E isso, meus caros, duas vezes ao dia sendo que à noite era pior porque aparecia o meu pai que também é um bom garfo. Criava-se ali uma espécie de espírito de competição em nada saudável mas que se lixe… Naquele momento, o papel da mulher limita-se a ser o de servente e a fazer conversa, à qual os dois animais respondem por grunhidos. Ao fim de dois ou três pratos, lá se desaperta o botão superior das calças para encher mais o bandulho e, no final, num esforço terrível, chega o momento de se deitar no sofá. Olha-se para o relógio e pensa-se: “Jasus”, amanhã há mais…

Haja saúde!

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