terça-feira, 10 de maio de 2011

Bebedês

Todas as aldeias têm um café onde os bêbedos vão lá parar. A certa altura, conheci um sujeito que trabalhava num desses locais há largos anos, facto que o levou a começar a falar como os seus clientes. O homem nem deu conta disso e, pouco a pouco, começou a contrair as palavras e a falar o que eu chamo de Bebedês.

Pude verificar isso quando um borracholas da terriola que tinha deixado crescer o bigode apareceu no café, sendo que o empregado lhe perguntou: “Ei, tas crexe godé?” (Transcrição: Ei, tas a deixar crescer o bigode, é?) Não é que o sujeito percebeu logo à primeira… Confesso que fiquei admirado e chocado com o que tinha acabado de assistir. Afinal, andamos nós a pronunciar todas as sílabas de todas as palavras para quê quando duas ou três chegam? E este exemplo que acabei de dar é meramente ilustrativo. Poderia dar outros mas não seria tarefa fácil por escrito…

A verdade é que ao fim de vários meses de treino intensivo, posso dizer que falo Bebedês. Consigo interpretar tudo o que um bêbedo possa dizer (grunhidos incluídos). Ah pois é meus amigos, não é poliglota quem quer!

Por exemplo, quando vêem um pobre desgraçado na rua, de garrafa de vinho tinto na mão, chamando por si dizendo: “Ei, taz-m vir’brão!?”, vocês não devem entender isso como “Ei, tas-me a ouvir cabrão!?” mas sim como “Caro Senhor, agradecia que prestasse alguma atenção em relação ao que lhe quero dizer”. A seguir, “Dá-m nheiro da piute!!!” não deverá ser entendido por “Dá-me dinheiro filho da puta!” mas sim “Estaria grato se me emprestasse um ou dois euros, quantia suficiente para me permitir constituir um capital indispensável para a aquisição de uma nova garrafa desta bebida com a qual me deleito”. Caso este pedido seja rejeitado, o mais certo será ele responder “Pró raio t’foda!”, expressão que seria erradamente interpretada por “Vai pró caralho que te foda!”. Na realidade, o homem estaria a dizer “Que pena não poder aceder ao meu pedido. Contudo, e apesar das nossas divergências de opinião, recomendo vivamente o senhor entrar urgentemente em contacto com a população masculina grega.”

Até parece simples, não é? Um dia desses, havemos de fazer um workshop… Nada melhor que a prática para aprender como deve ser. E em tempos de Enterro da Gata, não há momento mais propício para isso :-)

1 comentários:

António Campos Soares disse...

Mas que post fantástico...
Adorei o texto e confirmo os teus argumentos. Eu próprio gosto de frequentar esses tascos para ouvir essas "leis do menor esforço"...Muito Bom! Abraço