quarta-feira, 6 de julho de 2011

A Crise Grega e Europeia

Ultimamente, muito se tem falado da Grécia por causa da crise mas os nossos jornalistas, embora gostem comparar o destino helénico com o de Portugal, ocultam talvez deliberadamente um problema de maior relevância: a crise institucional europeia.

Apesar de trágico, o caso grego é fácil de perceber e, por ser tão simples, poderia ter sido evitado. O que é que nos observamos? Comecemos pelo início… O Governo grego mentiu em relação às suas contas públicas, tanto em termos de défice como de dívida, quando aderiu à União Europeia e, mais tarde, quando aderiu ao Euro. Apesar de se tratar de uma atitude incorrecta e condenável, a União Europeia não esteve totalmente inocente, pois o Eurostat não tinha por missão verificar as informações comunicadas pelos países candidatos à moeda única. Ou seja, a União Europeia não verificou as contas públicas dos países, confiando nos políticos. Confiar nos políticos? Pelo amor de Deus…

Para além disso, os gregos tal como os portugueses gostam da expressão “foder o Estado não é pecado”. Lembro-me que foi uma das primeiras coisas que me disseram quando cá cheguei… E isto, no dia-a-dia dos nossos amigos, verifica-se de várias formas. Por um lado, existe uma corrupção generalizada que pode ser observável na saúde e no fisco, por exemplo. O caso do fisco é o mais caricato, pois na Grécia não existem registos públicos de propriedades. Em consequência, constroem-se casas ilegalmente a torto e a direito, inclusive em zonas protegidas, sendo que os proprietários não pagam impostos, nem na fase de construção, nem depois. Só por curiosidade, estima-se que exista 1 milhão de casas construídas nestas condições em todo o país.

A função pública também não é isenta de queixas, pois os altos funcionários podem ocupar vários cargos ao mesmo tempo enquanto a plebe implora para ter um simples emprego. Esta desigualdade é ainda mais observável no que diz respeito aos impostos. Enquanto o povo deve pagar os seus impostos a tempo e horas, os armadores de navios estão totalmente exonerados, assim como a Igreja. É verdade… Sendo a Grécia uma grande potência em termos marítimos (10% do PIB grego está ligado a esta indústria) e que este sector contribui entre 15 mil e 20 mil milhões de Euros para a riqueza do país, esta exoneração aparece como injusta.

Neste contexto de injustiça económica e social, esta crise aparece como um alarme para a União Europeia acordar de vez, pois o que acontece na Grécia não é um caso isolado, pois países como Portugal, Espanha e Itália sofrem dos mesmos males. Embora seja em proporções diferentes, cabe à União Europeia controlar o que se passa porque, ajudar um país é uma coisa, ajudar cinco já é diferente, pois pede muitos esforços por parte de quem não quer ser obrigado a ajudar e pode ter consequências extremamente negativas.

Vamos por partes… É importante perceber que o problema da crise financeira está directamente ligado à Zona Euro e que não se trata apenas de uma crise socioeconómica como também institucional. De facto, o Tratado de Lisboa vinha resolver muitos problemas mas não tratou de fazer da Zona Euro uma zona monetária óptima. Na prática, a Zona Euro é constituída por países que têm políticas assim como interesses divergentes e, em função destes, o acesso a uma moeda forte pode ser uma vantagem para uns como um inconveniente para outros.
Exemplificando, neste momento o preço de 1 Euro corresponde a 1,43 Dólares. Em consequência, é mais difícil para os países da Zona Euro vender os seus produtos para países que estão fora da Zona Euro. Por sua vez, torna-se mais barato para os países da Zona Euro comprar fora da Zona Euro. O único país contente por ver o Euro forte é a Alemanha que, há 30 anos, reestruturou a sua economia apostando forte na indústria de topo ao contrário do resto dos países que preferiu optar por uma economia sustentada no consumo. Assim sendo, enquanto a Alemanha vende os seus automóveis em todo o mundo, apresentando evoluções positivas, os outros países da Zona Euro não conseguem. E para além de não conseguirem vender, estes países compram produtos no estrangeiro por serem mais baratos.

Dito isso, se a moeda baixar demasiado por via da especulação e das crises, a Alemanha poderá perfeitamente dizer aos restantes membros da União Europeia que se retira da Zona Euro para voltar ao Deutsche Mark e controlar totalmente a sua moeda. Embora tenha consequências negativas para a Alemanha, pode valer a pena agir assim mas, neste caso, as piores consequências vão sobrar para o resto dos países que irão perder um importante parceiro económico. Para além disso, outros países como a França estarão a equacionar reagir como o país vizinho. Nestas hipotéticas condições, quanto tempo aguentará o Euro e quais serão as consequências no funcionamento da União Europeia?

Ainda em relação às instituições, a crise grega introduziu o problema da vigilância económica que não estava a ser assegurada por ninguém. É fulcral que a União Europeia confira ao Eurostat ou a outra instituição um poder fiscalizador para que as contas públicas sejam verificadas e que as decisões certas sejam tomadas. Só desta forma os parceiros económicos irão confiar na União Europeia e na Zona Euro.

Por fim, a União Europeia atravessa uma crise política, sendo que observamos dois blocos. Por um lado, os países do Norte e, por outro lado os países do Sul. Duas realidades totalmente diferentes que pedem mais solidariedade entre os países membros. Em vez de pedir esforços desumanos a povos num curto prazo, porque não implementar programas com prazos mais alargados no tempo? Por trás dos números existem pessoas e os políticos têm tendência em esquecer este “pormenor”. Assim sendo, volto a colocar a questão do federalismo em cima da mesa. Quando é que a Zona Euro terá um governo federal como existe nos Estados-Unidos para que se possa implementar um conjunto de medidas que irão harmonizar as políticas dos países membros?

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